Os caminhos da saúde


por Eliane Sampaio Vieira de Castro



Texto publicado originalmente no periódico Alavanca nº 514, Mar-Abr-Mai 2016 e reproduzido com autorização.



“Não acumuleis tesouros na Terra, onde a ferrugem e os vermes os comem e onde os ladrões os desenterram e roubam; acumulai tesouros no céu, onde nem a ferrugem, nem os vermes os comem; porquanto, onde está o vosso tesouro aí está também o vosso coração.”

ESE.Cap. XXV, item 6


2000 anos se passaram e será que estamos prontos para viver o Evangelho de Jesus? No âmbito da saúde ao longo de séculos estamos passivamente trilhando caminhos tortuosos, aplicando conhecimento e recursos à serviço do nosso ego. Tomamos caminhos longos com resultados problemáticos para enfim aprendermos com a dor e assim buscarmos através de novas fórmulas e análises o que aprenderíamos olhando para nós mesmos, pelo menos é o que a história nos ensina.


No início do século XX, na esteira do desenvolvimento científico renascentista proliferavam as escolas de medicina em toda a europa e novo mundo, notadamente EUA e Canadá, e a força da liberdade ideológica característica da época vinha desenvolvendo a medicina ortodoxa e também terapêuticas não convencionais como as precursoras da fitoterapia e da homeopatia. Igualmente crescia a industria farmacêutica como forte difusora do método científico vinculada às publicações médicas oficiais de grande abrangência na época. Foi neste contexto de grande influência do método científico aliado a interesses econômicos que Abraham Flexner publicou seu relatório após avaliar o funcionamento de 155 escolas nos EUA e Canadá. Pelos critérios de Flexner apenas 31 destas 155 escolas apresentavam condições para funcionamento. Das 131 escolas americanas apenas 81 estavam. ativas após 12 anos. Das 20 escolas de medicina homeopática existentes apenas 4 permaneceram em funcionamento após 1920. A medicina assim redefinida e com força corporativa unida ao poder econômico influenciou governos e instituições fortalecendo o cientificismo e reducionismo. Se por um lado o Relatório Flexner como ficou conhecido, impulsionou a regulamentação e fundamentação teórico científica da formação profissional médica, por outro, fechou a medicina em critérios hermeticamente científicos e o paciente como ser multidimensional foi reduzido a um amontoado de órgãos, reações químicas e sistemas, que as palavras do professor Martins exemplificam muito bem... ”Juntem-se os órgãos e tem-se a pessoa... Ou, pior, juntem-se os órgãos e, se não se tem a pessoa, o problema é dela, não da medicina.”


O desenvolvimento das instituições hospitalares é outro exemplo que reflete bem a evolução do paradigma médico - científico. Antes do século XVIII o paciente acolhido nos

denominados hospices era o pobre que necessitava de assistência ou os que necessitavam exclusão por risco de contágio. A situação ideal na época era o tratamento no domicílio. Com o desenvolvimento da medicina científica as instituições foram se diferenciando, buscando o atendimento a casos agudos começaram a se estabelecer como centros de cura surgindo assim os hospitais, ávidos pela tecnologia e ciência, locais cada vez mais inadequados para os pacientes com morte certa. Outras instituições permaneceriam com a tarefa de acolher aqueles que estavam morrendo e até meados do século XIX estes locais eram basicamente caritativos, com pouca atividade médica e expostos à crescente estigmatização como “casas para os que morrem”.


Quase um século após o Relatório Flexner os problemas crescem de forma exponencial. Mesmo os paises desenvolvidos não estão conseguindo manter assistência à saúde adequada. Em novembro de 1996, a equipe do Hasting Center composta por membros de 13 paises chefiada pelo Dr. Daniel Callahan, após 4 anos de estudos envolvendo análises no âmbito da ética, direito, medicina, biologia, política, administração e saúde pública emitiu seu relatório final do projeto denominado “As Metas da Medicina”. Entre muitas considerações importantes o documento chama a atenção para o fato de algumas das tensões  relacionadas à saúde serem ocasionadas pelos êxitos da medicina e não pelos seus fracassos.


Estudiosos experts em estratégia culpam a perda do foco no paciente pelo caos econômico. Perdemos o foco no paciente, perdemos o foco no espírito e temos que a ele retornar. Trocamos o ser integral pelo lucro, pelo poder econômico e pelo desenvolvimento tecnológico. O paciente passou a ser apenas um componente da grande engrenagem que mobiliza grandes industrias e cada vez maior variedade de produtos. O problema enfim não foi causado pelo desenvolvimento científico e sim pela nossa incapacidade de reconhecer o grande instrumento em nossas mãos para a busca dos bens celestes. Nós é que transformamos todo este conhecimento em um paradigma excludente. 


Mas Deus é bom e as intituições governamentais hoje reconhecem a dimensão espiritual do ser. A tecnologia vem aos poucos se rendendo ao espírito, o qual recupera seu papel central nos objetivos de toda ação no campo físico. O paradigma médico espírita é hoje realidade e contribui para esta retomada do rumo correto pois a visão espírita da saúde é holística, busca no espírito a causa da doença e entende ser necessário tratar em ambos, corpo e espírito suas consequências. Este é o trabalho das AMEs (Associações Médico Espíritas) no Brasil e no mundo, unir definitivamente ciência e espiritismo. 



REFERÊNCIAS

  • Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo

  • Pagliosa, F.L.,DaRoss, M.A., O Relatório Flexner: Para o Bem e Para o Mal. Rev. Bras. Ed. Med.; 32(4):492-499; 2008.

  • Martins, A.; Multi, Inter e Transdisciplinaridade Sob um Olhar Filosófico. In: Transdisciplinaridade em Oncologia:

  • Caminhos para um atendimento integrado. ABRALE, 1a ed., São Paulo, SP, HR Gráfica e Editora, 2009.

  • Floriani, C.A., Schramm, F.R.; Casas para os que morrem: a história do desenvolvimento dos hospices modernos.

  • História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro. V.17, supl.1, jul.2010, p.165-180.

  • Las Metas de La Medicina. The Hastings Center Report. Suplemento Especial, noviembre-deciembre de 1996


SOBRE A AUTORA

Eliane Sampaio Vieira de Castro é Médica Cardiologista, Intensivista e Paliativista e vice-presidente da Associação Médico Espírita Campineira.


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