O Sofrimento e a Desregulação das Emoções em Dependentes Químicos a Partir de Uma Visão Pós-Materialista
- Fernando Semolini
- 18 de jan.
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Fernando Ferreira Semolini
(Grupo Apoio Fraterno de Campinas)
Introdução
No panorama atual do mundo de expiações e provas, lamenta-se a extensão dessas últimas para possibilidades e desdobramentos antes inéditos, ao mesmo tempo em que se felicita a compreensão humana cada vez mais esclarecida acerca dos males que assolam o educandário. Nesse contexto, o uso de substâncias químicas capazes de alterar as percepções em aparentes sensações prazerosas acompanhou toda história humana documentada. O vinho e a bebida alcoólica, antes glorificado como presente divino de Dionísio e Baco pelos gregos e romanos, recebe por parte dos adormecidos encarnados devoção semelhante nos dias hodiernos.
Destituída de sua materialização simbólica de agrado aos deuses, o abuso das substâncias químicas perdeu um propósito claro de finalidade, se é que um dia teve. O regozijo do "eu" não pode ser defendido com convicção nem mesmo pelos dependentes que, em alguma instância da consciência, compreendem as mazelas de seus vícios. Sem o propósito, o comportamento se expressa tal qual ordens do capitão em navio sem velas. Os dias se sucedem como ondas que carregam os estados emocionais do indivíduo para vetores opostos, ressaltando a inércia evolutiva embutida de sofrimentos. Em meio a tempestade, as drogas se tornam o mecanismo mágico com o qual os raios cessam, o mar se acalma e o céu se abre belo e radiante dando a impressão de solução salvadora. Sem estar, no entanto, acompanhada da percepção de que o barco continua estático, sem velas, muito menos um rumo; restando apenas a certeza de que novas tempestades virão.
Drogas e Dependências Químicas
A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que o álcool é a substância química mais consumida em todo o mundo, responsável por mais de 5% das mortes no globo. Enquanto o tabaco, segunda substância mais consumida, ocasiona aproximadamente 8 milhões de mortes anuais. Ademais, segundo o levantamento do World Drug Report de 2024 o número de indivíduos que fazem o uso de drogas ilícitas ultrapassou a casa dos 300 milhões no mundo, tendo um aumento de mais de 20% em relação a década anterior, com predomínio do uso de maconha, opioides, opiáceos, cocaína e ecstasy (UNODC, 2024).
No Brasil a prevalência de dependentes químicos chega na casa das 12 milhões de pessoas, representando mais de 6% da população. Entre os jovens a situação é ainda mais preocupante, com o último levantamento da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) indicando o consumo de bebidas alcoólicas presente em 63% dos indivíduos de 13 a 17 anos (IBGE, 2019).
Em meio ao preocupante cenário de crescimento do consumo de drogas, a dependência química é definida pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) como um conjunto de sintomas compulsivos em relação ao consumo de substâncias, apesar dos males que tal comportamento gera para o indivíduo. Nesse sentido, os critérios de diagnóstico envolvem: desejo persistente pela droga; fissura; redução das atividades sociais; riscos a integridade física; prejuízos ocupacionais e familiares; aumento do tempo gasto em busca das substâncias; consumo durante períodos maiores de tempo; uso contínuo apesar da percepção dos prejuízos ocasionados; sintomas de abstinência e tolerância.
Tais sintomas de abstinência, tolerância e fissura das substâncias químicas envolvem alterações psicobiológicas no Sistema Nervoso Central dos dependentes. Em geral, as drogas, quando ingeridas ou inaladas, ativam os neurônios dopaminérgicos presentes na área tegmentar ventral, responsável pela liberação do neurotransmissor dopamina para diversas regiões do encéfalo. Por meio da via mesolímbica, a dopamina chega ao Núcleus Accumbens, principal estrutura no sistema de recompensa cerebral, responsável pela sensação de euforia e prazer sentida após o consumo da substância. Ao mesmo tempo em que a via mesocortical leva dopamina para as regiões corticais, ativando receptores D2 e D1, estimulando a busca pelo consumo da droga por meio do incentivo a criação de hábitos e diminuição das capacidades de controle inibitório (Koob & Volkow, 2016). Por consequência, o abuso dessas vias neurais ocasiona disfunções na antecipação de recompensa, sistemas motivacionais, controle cognitivo, sistemas emocionais e controle dos impulsos, aumentando as chances de recaída no consumo das drogas (Zeng et al., 2023; Weiss et al., 2022).
As consequências do abuso de substâncias químicas assolam o indivíduo tanto nas instâncias fisiológicas, sociais e psicológicas, como também espirituais. No corpo físico observa-se maiores riscos para desenvolvimento de doenças cardíacas, pulmonares e vasculares; cânceres, diabetes, insônia e transtornos mentais, assim como mortes prematuras por overdose ou suicídio (Rehm, 2011; Araújo et al., 2017). Enquanto na instância espiritual, a dependência química se associa a penosos processos de vampirismo, danos ao perispírito do usuário que permanecem após o desencarne, suscetibilidade a más influências espirituais, desequilíbrios vibracionais e perca do propósito reencarnatório (Cardoso & Vera, 2023).
A Desregulação Emocional na Dependência Química
Diante de tamanhas turbulências causadas ao indivíduo pela utilização das substâncias químicas, injustificável se torna a continuação do uso por simples busca do prazer. Mais profundo do que o próprio sujeito imagina, a dependência se instala como mecanismo de enfrentamento do inconsciente aturdido contra as emoções e afetos negativos provenientes da inferioridade humana, ainda incapaz de enxergar com clareza as origens de suas mazelas e buscar o correto bálsamo das dores emocionais. Dessa forma, pode-se compreender as palavras de Joanna de Angelis quando diz que "na psicogênese da drogadição encontra-se o Espírito aturdido, inseguro, às vezes revoltado, que traz do passado uma alta carga de frustrações e de rebeldia" (Franco, 2023, p.136), como referentes, em partes, a alta predominância de desregulação emocional nesse grupo.
Nesse contexto, inicialmente Gross (1998) definiu a regulação emocional como a capacidade do indivíduo de gerenciar e controlar as próprias emoções. O que pode acontecer em vários momentos do processo emocional, como na situação que evoca emoções, na atenção dada a um elemento específico da situação, na interpretação emocional desse elemento ou na resposta emocional decorrente dessa interpretação (McRae & Gross, 2020). Dentre as estratégias adaptativas de regulação emocional, ou seja, aquelas que promovem o bem-estar e equilíbrio vibratório, podemos citar a evitação positiva, quando o indivíduo evita lugares ou situações que evocarão emoções negativas, trocando-os por ambientes mais salutares; a análise global, quando diante de uma situação inusitada o sujeito busca prestar atenção calmamente em todos os aspectos sem tirar conclusões precipitadas, o que evita o comportamento de enxergar só o pior das situações; e a reavaliação cognitiva, enquanto a ressignificação de acontecimentos a fim de compreendê-los melhor e amenizar o sofrimento (Gross, 2002).
Ademais, encontram-se concomitantes no ser humano as habilidades de regulação emocional, responsáveis por auxiliar o indivíduo durante a execução de estratégias adaptativas, assim como controlar comportamentos e monitorar as próprias emoções. Dentre elas, as que mais se destacam são o Mindfulness, enquanto a habilidade de manter atenção plena aos pensamentos e emoções sem julgamento; a clareza emocional, no que se refere a compreensão e descrição correta dos conteúdos emocionais; e a tolerância a angústia, sendo a capacidade de persistir numa tarefa ou propósito apesar do sofrimento ou estresse (Tull & Aldao, 2015).
No entanto, as pesquisas atuais demonstram que os dependentes químicos, em geral, apresentam baixa utilização de estratégias e habilidades adaptativas de regulação emocional, assim como exibem altos índices de desregulação emocional, reforçada e agravada pela dependência (Weiss et al., 2022). Dessa forma, a utilização de drogas se torna uma estratégia desadaptativa para lidar com o sofrimento e emoções negativas decorrentes dos processos evolutivos naturais da encarnação. Por meio do enfrentamento indireto, qual aquele que cobre de folhas o buraco da alma ao em vez de tampá-lo apropriadamente com o cimento do confronto direto e respeitoso, a ilusória sensação de prazer promove o momentâneo esquecimento das dores terrenas, ao mesmo tempo que auxilia o usuário na desesperada fuga de realidade que, ao contrário dos objetivos iniciais, engendra no sujeito o neuroticismo, a instabilidade emocional e a insegurança diante das provas da vida (Franco, 2023).
"Existem níveis diferentes de pessoas que podem tombar nas malhas da drogadição. Aquelas que se apresentam atemorizadas, receando a vida, que lhes parece sempre injusta e perversa, destituídas de tolerância em relação as próprias frustrações. Aqueloutras que podem ser consideradas dependentes, isto é, para quem a existência deve ser sempre agradável e compensadora, buscando, na droga química, seja qual for, uma fuga da realidade que, em face da sua injunção aflitiva, deve ser negada ou apagada a qualquer preço. O primeiro grupo encontra no uso da droga a segurança que falta no estado de lucidez, embora reconheça que é de curta duração, mantendo a expectativa de renovação de outras doses até o desespero que não tarda. O segundo, vitimado pela ansiedade, refugia-se no tóxico, evitando o trânsito pelas situações desafiadoras para as quais acredita-se incapaz de enfrentamento" (Franco, 2023, p. 136).
Diante desse cenário, necessário se torna a vontade ativa para a mudança de comportamento, que inevitavelmente passará pela dedicação e paciência em relação a educação dos pensamentos e emoções, sem a qual todo esforço se torna turvo e sem direcionamento correto, facilitando a desistência e recaída nas drogas. Evitando a penosa acomodação mental e moral decorrente da dependência, exige-se o temporário desconforto do enfrentamento adaptativo em relação aos sofrimentos emocionais e mazelas da alma. De forma que somente depois de logrado o objetivo em bendita transformação íntima, o indivíduo desfrutará da verdadeira paz.
Recuperação da Dependência Química por meio da Regulação Emocional
Quando Jesus subiu o monte e proclamou as bem aventuranças, nos atentamos, para os propósitos desse tema, ao ensinamento "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles será o reino dos céus" como um convite ao autoconhecimento necessário para a percepção das fraquezas emocionais. Pois somente aqueles que mantem a clareza da própria pobreza espiritual são capazes de exercer a mudança e evoluir. Em complemento "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados" confirma o bálsamo esperado após o doloroso processo que é o enfrentamento das sombras internas e males da alma (Elarrat, 2023).
Dito isso, é sempre necessário ter em mente o uso de drogas não como o problema em si, mas como a solução mal adaptada encontrada pelo indivíduo para adiar o contato com o que há de pobreza em seu interior, assim como evitar o "choro" decorrente desse encontro, único capaz de promover a consciência engendradora da ação ativa no aprimoramento pessoal. Dessa forma, faz-se necessário primeiro encher o tanque de combustível antes de rumar para novos ares. Ou seja, de nada adianta deixar as drogas sem que outro comportamento surja para suprir o vazio deixado pelo abandono da drogadição, sem o qual, cedo ou tarde, trará o indivíduo de volta para o hábito nocivo.
"Qualquer hábito, para ser liberado do indivíduo que lhe aceita a injunção, deve ser substituído por outro, de forma que não surja o vazio, a ausência de algo que pareça importante, em face de se estar acostumado à sua presença" (Franco, 2023, p. 153).
Suscitando a clareza emocional, Joanna de Angelis complementa:
"É necessária uma mudança de comportamento na qual o paciente deve possuir uma clara percepção de sua ansiedade, aprendendo a superá-la, vencendo-a sem o uso da substância. Essa mudança propõe várias etapas nas quais o paciente vai-se adaptando a cada uma delas no curso do seu processo de cura, evitando criar outros hábitos nocivos" (Franco, 2023, p.154).
Em busca da difícil missão não adiável, para além dos tratamentos médicos, psiquiátricos e psicológicos, o trabalho com a própria regulação emocional se torna indispensável, sem o qual as ajudas profissionais pouco efeito surtirão a longo prazo. Como origem de todo sofrimento, o contato com a inferioridade humana exige vontade e preparo por parte da pessoa que decide pelo caminho da recuperação. Tal esforço empreendido para fora, na aceitação das medicações e tratamentos, deve ter magnitude semelhante para dentro, ou seja, no aprimoramento íntimo por meio da identificação das sombras e trabalho na edificação da alma, como expresso pela benfeitora: "somente com sua vontade bem direcionada, poderá superar os momentos difíceis que surgem, confiando nos resultados futuros" (Franco, 2023, p.142).
Nesse longo processo, Joanna de Angelis ainda ressalta que:
"Não poucas vezes, as forças morais parecem faltar, em face dos transtornos físicos e emocionais, tornando-se necessário que o paciente procure a renovação das energias e o encorajamento indispensável para continuar no seu processo de restabelecimento. Por outro lado, os Espíritos amigos acercar-se-lhe-ão, auxiliando-o de que necessita, a fim de que ocorra a libertação do fosso em que se atirou" (Franco, 2023, p.143).
Nos relembrando sempre da importância de se buscar a ajuda espiritual renovadora de energias e intuições benéficas. Assim como apontando um valioso mecanismo de enfrentamento dos sofrimentos humanos, que é o apoio dos benfeitores em momentos de oração profunda e sincera. Sobre isso, quando questionado sobre a utilização problemáticas de cigarros como uma forma de enfrentamento da solidão, Emmanuel respondeu que "o melhor dissolvente da solidão é o trabalho em favor do próximo, através do qual se forma, de imediato, uma família espiritual em torno do servidor" (Xavier & Worm, 2014), demonstrando a caridade, o amor e o trabalho pelo próximo como auxiliares notavelmente salutares na recuperação das dependências químicas.
Dessa forma, na jornada pela regulação emocional como fator de proteção contra recaídas, concomitante a ajuda espiritual, deve-se buscar com igual fervor a ajuda dos encarnados e companheiros terrenos. Nesse âmbito, as pesquisas atuais evidenciam o benefício da promoção de terapias complementares como homeopatia, Reiki e acupuntura, assim como técnicas meditativas complementares ao tratamento médico como o programa de "Prevenções de Recaída Baseada em Mindfulness" (MBRP), "Redução de Estresse Baseado em Mindfulness" (MBSR) e Raja Yoga (Aguiar, 2020). Em instância não menos importante, os grupos de ajuda mútua desempenham papel crucial na motivação e apoio dos dependentes químicos, como os Alcoólicos Anônimos (AA), Narcóticos Anônimos (NA), Amor-Exigente (AE) e Apoio Fraterno (AF) (Cardoso & Vera, 2023).
Considerações Finais
Sobrepondo-se aos desafios da vida, na compreensão do espírito imortal que somos, todo sofrimento se torna mecanismo de aprimoramento e dádiva divina ante a lapidação necessária da alma em burilamento. O bem sofrer se estabelece na consciência com o entendimento das provas e expiações enquanto guias para o reino de Deus que habita o interior de cada um. Em luz desse conhecimento, a recuperação da dependência química se torna passo forçoso na evolução contínua daqueles que herdarão a Terra. Mecanismos para lograr tal feito não faltam, restando para o sujeito ainda preso ao barco sem velas as palavras do Mestre e Guia da humanidade: "Tudo é possível aquele que crê".
Referências
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Cardoso, E. L., & Vera, A. V. D. (2023). Dependência química e espiritualidade na visão médico-espírita. 1. Ed. São Paulo: AME-Brasil Editora
Elarrat, J. (2023). As Bem Aventuranças - Jorge Elarrat. YouTube: Web Rádio Fraternidade. 5 de mar. de 2023.
Franco, D. P. (2023). Conflitos Existenciais. 1. Ed. / Pelo espírito Joanna de Angelis [psicografado por] Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL
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