Cuidados Paliativos: cuidando na morte, humanizando o fim da vida


por Eliane Sampaio Vieira de Castro



Texto publicado originalmente no periódico Alavanca nº 511, Ago-Set/2015 e reproduzido com autorização.



No imaginário humano desencarne é morte. Por mais que avance o conhecimento da realidade espiritual, a humanidade hoje vive o sonho da vida eterna na estrutura física, sonho este acalentado pelo desenvolvimento da ciência, grande triunfo do renascimento e do iluminismo que ao longo de quatro séculos a partir do século XIV descaracterizaram a finitude como certeza, substituindo-a pela possibilidade do prolongamento da vida ou adiamento da morte. Os hospitais que hoje assistem a luta pela vida são a evolução de instituições que na idade média acolhiam os doentes pobres ou abandonados e os assistiam no seu desencarne, já que os nobres desencarnavam em suas residências assistidos pelos seus entes queridos. Com o desenvolvimento da ciência médica o desencarne cuidado aos poucos se transformou no desencarne medicado, encarado como algo a ser curado.


A busca da cura como prêmio possível relegou a morte à condição de problema a ser vencido. O ser fragmentado nos seus diversos sistemas físicos a serem tratados viu a sua essência resumida ao que fosse tecnicamente acessível e modificável. Perdeu a sua importância e passou a representar no seu momento final o incômodo fracasso que teima em ter necessidades etéreas.


Vários relatos de desencarnes e sua problemática em relação à realidade espiritual foram descritos nas obras de André Luiz pela psicografia de Chico Xavier. O caso de Cavalcante em Obreiros da Vida Eterna publicado em 1946 ilustra com detalhes este descompasso entre as necessidades do doente que agoniza, os critérios de valores adotados pela equipe de encarnados e as dificuldades da equipe espiritual no auxílio ao desencarnante. Cavalcante navisão dos benfeitores espirituais “perseverante trabalhador no bem”, pressentindo o próprio desencarne “experimentava funda sede de consolo, necessitava coragem que lhe viesse doexterior”. Atemorizado frente à morte, num momento de lúcida análise de sua trajetórianaquela existência, buscava o perdão da esposa que embora não soubesse já se encontrava desencarnada. Pelo péssimo estado vibratório em que se encontrava não percebia a assistência espiritual de Jerônimo e Bonifácio, amigos espirituais que se desdobravam para diminuírem o seu sofrimento. Ainda em possibilidade de contato com o médico e os religiosos encarnados que o assistiam tudo o que obteve foi aflição e desrespeito. Por fim, tamanho prejuízo vibratório definiu a sintonia com as imagens infernais sob a visão das quais agonizou e desencarnou.


A despeito de todo o desenvolvimento da ciência continuamos desencarnando. Demoramos mais no processo de doença e tanto a dor quanto as possibilidades de crescimento espiritual no período final da experiência física se encontram ampliadas, mas mudanças vão ocorrendo e respondem aos novos tempos. Em 22 de junho de 1918 encarnou em Barnet no Reino Unido o espírito carismático que veio a chamar-se Cicely Saunders. Na Inglaterra pós-segunda grande guerra, esta senhora inicialmente enfermeira, formou-se em assistência social e posteriormente em medicina e através do seu trabalho com pacientes no fim da vida cunhou as bases do que hoje é conhecido como Cuidados Paliativos ou Filosofia dos Hospices. Esta nova abordagem se fundamenta na visão multidimensional da dor, no seu aspecto emocional, social, físico e espiritual, na caracterização da unidade a ser acolhida e atendida como composta por paciente e familiares, e no trabalho multiprofissional e interdisciplinar. Desencarnou em 14 de julho de 2005, após longa vida de trabalho e dedicação à causa da humanização do fim da vida. Seu trabalho é mundialmente conhecido e os Cuidados Paliativos são reconhecidos como política pública de saúde para acompanhamento de pacientes em condição de terminalidade e seus familiares pela Organização Mundial de Saúde (OMS) desde 1990, recomendado e implantado em todos os continentes. Em 2002 a OMS ampliou o conceito dos Cuidados Paliativos abrangendo pacientes ainda em fase de tratamento de doenças potencialmente fatais, reconhecendo a grande importância da visão holística do ser durante todo o processo de adoecimento.


São princípios dos Cuidados Paliativos: Promover o alívio da dor e de outros sintomas desagradáveis, afirmar a vida e considerar a morte um processo normal da vida, não acelerar nem adiar a morte, integrar aspectos psicológicos e espirituais no cuidado ao paciente, oferecer suporte que permita ao paciente viver tão ativamente quanto possível até o momento de sua morte, oferecer suporte para os familiares durante a doença do paciente e luto e oferecer abordagem multidisciplinar a paciente e familiares. Deve ser iniciado o mais precocemente possível junto a outras medidas de prolongamento da vida como quimioterapia e radioterapia e incluir todas as investigações necessárias para melhor compreensão e manejo dos sintomas.


Cicely Saunders nunca aceitou o velho e surrado bordão “não há mais o que fazer”, mas ao contrário, provou que com amor há muito que fazer. Ao considerar os familiares como componentes do processo de adoecimento e sofrimento nos abriu a perspectiva de atuar de forma positiva não apenas em relação ao doente, mas também contribuir para o fortalecimento dos laços de amor no núcleo familiar através do apoio ao cuidador, prevenindo o surgimento de novos doentes da alma. Enfim Cicely Saunders trouxe a ciência até o último instante da vida e nos ensinou que ela é benéfica, enquanto houver em nós respeito, compaixão e acima de tudo amor.



SOBRE A AUTORA

Eliane Sampaio Vieira de Castro é Médica Cardiologista, Intensivista e Paliativista e vice-presidente da Associação Médico Espírita Campineira.


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